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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

FOI ASSIM: ESTAVAS FELIZ


Foi assim:
estavas feliz, depois estavas triste,
depois voltavas a estar feliz, depois já não.
Foi-se prolongando.
Estavas inocente ou tinhas culpa.
Levava-se a cabo acções, ou não.
Por vezes falavas, noutras ficavas calado.
Em geral, parecia que estavas calado: o que haverias tu de dizer?
Agora está quase a terminar.
Como um amante, a tua vida dobra-se e beija a tua vida.
Não o faz em jeito de perdão —
entre vocês, nada há a perdoar —
mas com o simples acenar de cabeça de um padeiro
ao reparar que o pão concluiu a sua transformação.
Também comer é agora uma coisa para os outros apenas.
Não importa o que acharão de ti
ou dos teus dias: estarão enganados,
terão saudades da mulher errada, saudades do homem errado,
todas as histórias que contarem serão fábulas da sua própria lavra.
A tua história foi assim: estavas feliz, depois estavas triste,
dormias, acordavas.
Por vezes comias castanhas assadas, por vezes dióspiros.

Jane Hirshfield
(tradução de Vasco Gato)

UMA PESSOA RECLAMA COM O DESTINO


Uma pessoa reclama com o destino:
«As coisas que mais
me fizeste querer
são aquelas que mais me escapam.»
O destino assente.
O destino está solidário.
Apertar os atacadores, abotoar uma camisa,
são triunfos
apenas para os muito novos,
os muito velhos.
Durante o longo permeio:
conjugar um rebite
dominar o tango
ensinar o gato a não saltar para a mesa
preservar um único instante mais demorado do que este
continuar a acordar independentemente do que aconteceu na véspera
e as caligrafias que o amor pratica dentro do corpo.
Jane Hirshfield
(tradução de Vasco Gato)

domingo, 15 de janeiro de 2017

RECEITA PARA A FELICIDADE EM KHABOROVSK OU ONDE QUER QUE SEJA



Uma avenida fabulosa com árvores
com uma esplanada fabulosa ao sol
com um café escuro e forte em chávenas mínimas.
Um homem ou uma mulher não necessariamente
lindíssimos que nos ame.
Um dia agradável.
Lawrence Ferlinghetti
(tradução de Vasco Gato)



Café Scene - Study for “The Red Café” Giovanni Boldini 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017



Sometimes, before I fall asleep or when I catch a piece of music that lifts my soul, I envision another way to live, like that moment last night when the setting sun hit the top of that rise and the leaves glowed. They were alight with life, and it lasted only a moment. That’s when I suspect I’ve gotten it wrong and I’ve wasted my time, tilting at windmills–not anticipating the unexpected or being present enough to recognize it.

Katherine Reay | A Portrait of Emily Price 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017






The world is full of loss; bring, wind, my love,
my home is where we make our meeting-place,
and love whatever I shall touch and read
within that face.

Lift, wind, my exile from my eyes;
peace to look, life to listen and confess,
freedom to find to find to find
that nakedness.


— MURIEL RUKEYSER







sexta-feira, 30 de dezembro de 2016



If the gods bring to you / a strange and frightening creature, / accept the gift / as if it were one you had chosen. / That you came to love it, that was the gift. / Let the envious gods take back what they can.


Jane Hirshfield | The Beauty: Poems | The Lives of the Heart


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

QUARTO CINZENTO


Embora sentada num quarto que é cinzento,
À excepção da prata
Do papel-de-arroz,
A arrepanhares o teu vestido branquíssimo;
Ou a levantares uma das contas verdes
Do teu colar,
Para a deixares cair;
Ou a contemplares o teu leque verde
Estampado com os ramos vermelhos de um salgueiro vermelho;
Ou, com um dedo,
A deslocares a folha na taça —
A folha que caiu dos ramos da forsítia
Ao teu lado...
O que é tudo isso?
Eu sei a fúria com que bate o teu coração.
Wallace Stevens
(tradução de Vasco Gato)


terça-feira, 27 de dezembro de 2016


  • "
    I
    Don’t ask for the true story;
    why do you need it?
    It’s not what I set out with
    or what I carry.
    What I’m sailing with,
    a knife, blue fire,
    luck, a few good words
    that still work, and the tide.
    II
    The true story was lost
    on the way down to the beach, it’s something
    I never had, that black tangle
    of branches in a shifting light,
    my blurred footprints
    filling with salt
    water, this handful
    of tiny bones, this owl’s kill;
    a moon, crumpled papers, a coin,
    the glint of an old picnic,
    the hollows made by lovers
    in sand a hundred
    years ago: no clue.
    III
    The true story lies
    among the other stories,
    a mess of colours, like jumbled clothing
    thrown off or away,
    like hearts on marble, like syllables, like
    butchers’ discards.
    The true story is vicious
    and multiple and untrue
    after all. Why do you
    need it? Don’t ever
    ask for the true story.
    "
  • –    Margaret Atwood 

    domingo, 20 de novembro de 2016

    walking, .. com o meu coração


    Depois de jantar
    saio
    e passeio o meu coração
    acenando cabeça cúmplice
    aos vizinhos
    que vivem também este peso
    de passear os seus bichos à trela


    A felicidade da luz ..


    "A felicidade da luz é a felicidade
    do sangue que percorre 
    o nosso corpo, e dá tudo o que tem.
    A luz é feliz
    porque acompanhou 
    a infância do mundo.
    É como aqueles poetas 
    que tentam fazer dos
    seus versos 
    água bastante, perdurável.
    Apenas o nevoeiro toca
    nessa claridade, mas a luz 
    continua no alto
    prestável, soberana.
    (Que pena, meu amor,
    que nela não estejas.)"


    quinta-feira, 10 de novembro de 2016

    Void











    "…And I swear there must be no greater void in all the universe than the one love leaves between two people."
      Beau Taplin • V o i d













    domingo, 6 de novembro de 2016

    Just Like The Movies


    Quando ela corre rápido pela
    rua até aos teus braços desejas
    que tudo seja em câmara-lenta -
    o momento do abraço quando a primeira
    coisa que tocas é o seu perfume -
    levas o nariz ao teu cabelo
    como uma língua. Fechas
    os olhos como nos filmes -
    à espera que a música comece,
    que uma canção seja cantada por alguém,
    com palavras como - Isto é amor.
    Será sempre amor. Isto é amor.
    Será sempre amor.


    - E. Ethelbert Miller

    sexta-feira, 4 de novembro de 2016



    "O corpo sabe.
    O corpo não esqueceu ainda
    a direcção do sol:"
    — Eugénio de Andrade



    quarta-feira, 2 de novembro de 2016

    Ode Marítima ..




     ...
    Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! 
    E quando o navio larga do cais 
    E se repara de repente que se abriu um espaço 
    Entre o cais e o navio, 
    Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente, 
    Uma névoa de sentimentos de tristeza 
    Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas 
    Como a primeira janela onde a madrugada bate, 
    E me envolve como uma recordação duma outra pessoa 
    Que fosse misteriosamente minha. 
    ...

    Álvaro de Campos

    Tejo-Cais
    Photo by Paulo Gil

    domingo, 30 de outubro de 2016



    I want a bedroom near the sky, an astrologer’s cave
    Where I can fashion eclogues that are chaste and grave.
    Dreaming, I’ll hear the wind in the steeples close by
    Sweep the solemn hymns away. I’ll spy
    On factories from my attic window, resting my chin
    In both hands, drinking in the songs, the din.
    I’ll see chimneys and steeples, those masts of the city,
    And the huge sky that makes us dream of eternity.


    How sweet to watch the birth of the star in the still-blue
    Sky, through mist; the lamp burning anew
    At the window; rivers of coal climbing the firmament
    And the moon pouring out its pale enchantment.
    I’ll see the spring, the summer and the fall
    And when winter casts its monotonous pall
    Of snow, I’ll draw the blinds and curtains tight
    And build my magic palaces in the night;
    Then dream of gardens, of bluish horizons,
    Of jets of water weeping in alabaster basins,
    Of kisses, of birds singing at dawn and at nightfall,
    Of all that’s most childish in our pastoral.
    When the storm rattles my windowpane
    I’ll stay hunched at my desk, it will roar in vain
    For I’ll have plunged deep inside the thrill
    Of conjuring spring with the force of my will,
    Coaxing the sun from my heart, and building here
    Out of my fiery thoughts, a tepid atmosphere.


    —  JOHN ASHBERY

    sexta-feira, 28 de outubro de 2016


    "imóvel contemplo a lua
    e os outros pensam
    que sou cego"

    — Matsuo Bashô

    The Moon Dreamer: Painting Luna by zungzwang

    terça-feira, 25 de outubro de 2016

    terça-feira, 18 de outubro de 2016

    DANGER ..


    Quem vive para o amor está lixado
    não tarda, que o amor é um amplo espaço
    vazio sem cor nem forma e um silêncio
    tumular por dentro. Mau, muito mau
    para se levar alguém. Mas tu vieste
    e de imediato tudo fôra já decidido
    como quando alguém nasce e olha em torno
    – pouco importa se estranha ou não a paisagem.
    Tínhamos o nosso espaço e tínhamo-nos
    a nós, um ao outro por natural companhia
    era o amor, tudo indicava. Podia-se morrer
    disso. E tínhamos o tempo todo para ver.


    Rui Caeiro

    quinta-feira, 6 de outubro de 2016

    a dor


    A dor não humaniza, não enobrece,
    não nos faz melhores nem nos salva,
    nada a justifica nem a anula.
    A dor não perdoa nem imuniza,
    não cria nada e nada a destrói.
    A dor existe sempre e sempre volta,
    nenhum dos seus actos é o último
    mas todos podem ser definitivos.
    A dor mais horrível pode sempre
    ser ainda mais intensa  e ser eterna.
    Anda sempre acompanhada pelo medo
    os dois se alimentam um ao outro.


    Amalia Bautista

    terça-feira, 23 de agosto de 2016

    Tentas usar o telefone
    que já não atende
    o teu discar
    é agora apenas
    o belo objecto que é
    como tudo assim
    há-de ser
    dando-se tempo ao espaço
    para fixar
    o seu rosto
    antes da grande
    debandada
    mas não foi
    em vão
    o teu gesto
    sorris ao devolvê-lo
    a si mesmo
    como quem tocou
    sem querer
    o realíssimo
    braço alheio
    e se julgou
    chegado
    à intimidade
    quem diz
    que o plástico negro
    do telefone
    não se julgou também
    encontrado
    na mão insensata
    ele que matutava
    nas vozes
    que o circularam
    tão longínquas já
    tão definidas ainda
    na sua súplica
    de que não mais
    findasse
    aquele crepitar
    do silêncio partilhado
    V.G.